Faoro toma posse na Academia Brasileira de Letras
Brasília, 17/09/2002 - O jurista e ex-presidente nacional da OAB Raymundo Faoro toma posse hoje na Academia Brasileira de Letras (ABL), na cadeira antes ocupada por Barbosa Lima Sobrinho. No último dia 9, em solenidade no Rio, o Conselho Federal da Ordem outorgou a Faoro a Medalha Rui Barbosa, a mais alta comenda conferida às grandes personalidades da advocacia brasileira. Na solenidade, o presidente nacional da OAB, Rubens Approbato Machado, também entregou, em nome do Conselho, o fardão que Faoro irá vestir hoje ao tomar posse na ABL.
Abaixo, transcrevemos artigo do jornalista e também membro da ABL, Carlos Heitor Cony, publicado na Folha de S. Paulo, sobre Raymundo Faoro:
Raymundo Faoro
RIO DE JANEIRO - Tomará posse hoje na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que durante anos pertenceu a Barbosa Lima Sobrinho, o escritor e advogado Raymundo Faoro. Poucas vezes na história daquela casa tivemos a entrada de uma personalidade que é, ao mesmo tempo, um escritor e um notável na vida pública nacional.
Faoro tem duas obras clássicas: "Os Donos do Poder", um dos trabalhos mais importantes de nossa ensaística, e "A Pirâmide e o Trapézio", em que destrói brilhantemente um dos lugares-comuns mais inarredáveis (e burros) de nossa crítica literária -a alienação de Machado de Assis em relação a fatos políticos e sociais de seu tempo.
Numa recente conversa com Faoro, fiquei sabendo que ele prepara um ensaio sobre Vieira, de quem somos admiradores e devotos de carteirinha. Sua atividade intelectual é tão intensa que fico admirado de ver o seu nome apenas associado -com justiça e mérito, na certa- a uma das fases mais obscuras de nossa vida pública, quando, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, tornou-se o gigante que lutou pela democratização e pelo fim da tortura do regime militar de 1964.
Raymundo Faoro será saudado por outro gigante, o advogado do século, título que recebeu de seus colegas de militância forense. Evandro Lins e Silva promete para logo mais um discurso que, a pretexto de saudar o colega de profissão e agora de academia, será um painel do nosso tempo conturbado, uma análise e um testemunho de tudo o que, acontecendo num passado recente, criou as condições para o desafio que enfrentamos não apenas no campo político e social mas na própria seara cultural.
O diabo é que, para essas cerimônias da academia, sou obrigado a vestir aquele fardão verde que me dá a aparência de um gafanhoto enfeitado. Mas hoje vai valer a pena.
