OAB-AL relata censura a ato anti-transposição do Velho Chico
Fortaleza (CE), 02/04/2005 – O vice-presidente da Seccional da OAB de Alagoas, Everaldo Bezerra Patriota, denunciou na reunião do Colégio de Presidentes de Seccionais da OAB, ter sido vítima de censura no último dia 22, quando tentou participar de um ato público contra o projeto de transposição do rio São Francisco. O local da manifestação, marcada para ocorrer no Dia Nacional da Água, foi a ponte sobre o Velho Chico que separa a cidade sergipana de Propriá da alagoana Porto Real de Colégio. “Esse é um alerta para a gente começar a se preocupar com o caudilhismo, com o stalinismo de alguns do núcleo duro desse governo, que se diz popular mas só tem pensamento único e hegemônico”, afirmou Everaldo Bezerra Patriota.
Quando ainda trafegava pela BR-101, na tentativa de chegar à ponte, o vice-presidente da OAB alagoana foi comunicado por um policial rodoviário da existência de uma liminar de um juiz federal de Sergipe, proibindo a realização da manifestação e impondo multa por desobediência de mil reais por manifestante. Os organizadores do ato haviam previsto a interdição total da ponte por prefeitos dos dois Estados, membros de associações de moradores ribeirinhos e integrantes das várias entidades que compõem a Frente Nacional de Defesa do São Francisco, mas só conseguiram bloquear metade da ponte para o protesto.
“Isso para salvar o rio da transposição do São Francisco, uma causa que é supra partidária, supra-ideológica, desse governo caudilho que traiu as esperanças do povo brasileiro”, relatou Bezerra Patriota aos presidentes de Seccionais da OAB, reunidos em Fortaleza. ”Eu estava lá representando o meu presidente, em meio a muitos federados. Não era um movimento de desordeiros, não era um bando de vândalos. Eram homens e mulheres, cidadãos de bem”.
Em seu relato, Everaldo Bezerra Patriota se disse frustrado com o ocorrido e criticou membros do governo – autor do projeto de transposição das águas e ao qual Estados como Sergipe e Alagoas são contra – que não estão preparados para o contraditório. “Não estão preparados para o regime de pluralidade democrática. E eu descubro isso com muita tristeza, porque votei em Lula em duas eleições”.
Segue a íntegra do relato feito pelo vice-presidente da OAB de Alagoas:
“Gostaria de registrar e faço uma ênfase bem forte, sem ferir a análise da matéria em si, um fato ocorrido no último dia 22 de março, o Dia Nacional das Águas. Nessa data, alguns entes federados, municípios ribeirinhos do São Francisco, a Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe, a Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas, a OAB de Alagoas, associações de pescadores e entidades da sociedade civil programaram uma manifestação no Dia Nacional das Águas para interditar a ponte Propriá-Colégio e, uma vez mais, chamar a atenção para a causa da transposição do rio São Francisco. Lá chegando, fomos surpreendidos com a existência de uma liminar de um juiz federal de Sergipe, proibindo qualquer manifestação e impondo uma multa por desobediência de mil reais por manifestante. Eu perguntei ao inspetor da Policia Rodoviária Federal: o senhor tem efetivo para nos impedir? E ele respondeu: a Polícia está disfarçada no meio de vocês, fotografando e filmando a todos. Eu disse a ele: quer o meu RG, meu CPF? Quer o meu endereço e a minha inscrição na OAB? O bispo de Própria, Dom Mário, estava indignado e eu perguntei ao agente: o senhor trouxe o DOI COD, o Cenimar, o Dops, todos esses instrumentos da época da ditadura? Com muito custo negociamos para conseguir interditar só a metade da pista e a outra metade permanecer com o fluxo. Isso nunca FHC fez. Foi algo que me deixou muito triste, muito preocupado. Eu que saí às ruas pelas Diretas, que saí do Ministério da Educação no dia 20 de março de 1981 escoltado ao lado da UNE e de Aldo Rebelo sem poder cantar o hino nacional, porque se cantássemos soltariam os cães e as bombas, não esperava isso. Isso para salvar o rio da transposição do São Francisco, uma causa que é supra partidária, supra-ideológica, desse governo caudilho, que traiu as esperanças do povo brasileiro. Estava lá a Ordem dos Advogados do Brasil. Eu estava lá representando o meu presidente, em meio a muitos federados. Não era um movimento de desordeiros, não era um bando de vândalos. Eram homens e mulheres, cidadãos de bem. Esse é um alerta para a gente começar a se preocupar com o caudilhismo, com o stalinismo de alguns do núcleo duro desse governo, que se diz popular mas só tem pensamento único e hegemônico. Não estão preparados para o contraditório. Não estão preparados para o regime de pluralidade democrática. E eu descubro isso com muita tristeza, porque votei em Lula em duas eleições. Isso não é um desabafo pessoal, é porque lá eu estava representando a OAB. Estava lá com companheiros de mais de 70 anos de idade, como é o caso da conselheira federal Eunice Auto da Silva Nonô, e com a conselheira federal Marilma Torres Gouveia de Oliveira. Que nós nos preparemos porque tem muito caudilho na praça, tem muita gente com verdade única, tem muito Jesus Cristo querendo nos impor um caminho, a salvação e a vida”.
