Artigo: Benenson e a Anistia Internacional
Brasília, 02/03/2005 - O artigo "Peter Benenson e a Anistia Internacioanl" é de autoria do vice-presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Aristoteles Atheniense:
"Na última sexta-feira, 25, o mundo perdeu uma das mais notáveis figuras da atualidade, que marcou sua existência pela dedicação aos perseguidos, notabilizando-se pela coragem dos predestinados.
Peter Benenson, filho de um banqueiro judeu de origem russa, educado por sua mãe viúva, estudou Direito numa Universidade de Oxford, cidade onde faleceu. Coube-lhe levar a luz às prisões, denunciando das câmaras de tortura e a tragédia dos campos de concentração.
Ninguém o superou desde que, no final de 1960, folheando um jornal no metrô londrino, deparou com uma pequena notícia que lhe despertou a atenção: no regime salazarista dois jovens estudantes portugueses tinham sido condenados a sete anos de prisão, por terem feito um brinde à liberdade, num Café de Lisboa.
Tomado de revolta, não se contentou em protestar junto à Embaixada Portuguesa, em Londres. Foi além e, em 28 de maio de 1961, publicou no diário “The Observer” a seguinte mensagem: “... abra um jornal - em qualquer dia da semana - e você vai encontrar uma reportagem de algum lugar do mundo onde alguém está sendo preso, torturado ou morto, porque suas opiniões ou sua religião não são aceitos por seu governo. O leitor do jornal fica com um sentimento de grande impotência. Mas se esse sentimento de aversão em todo mundo puder ser unificado em uma ação comum, alguma coisa efetiva pode ser feita”.
Esta preocupação o levou a criar a Anistia Internacional, aos 40 anos, tendo recusado inúmeras homenagens do governo de seu país. A cada tentativa de um primeiro-ministro, o bravo advogado (tal como nosso Sobral Pinto) respondia com uma carta datilografada, enumerando as violações de direitos humanos cometidas naquele país.
Benenson, embora de ascendência judaica, era um advogado católico que acreditava em sua missão pacifista. Desde estudante mostrou-se dotado de uma personalidade marcante.
A veia revolucionária foi demonstrada quando, aluno interno da famosa Escola de Eton, onde estudavam jovens da elite britânica, escrevia cartas ao diretor censurando a má qualidade da alimentação servida aos alunos.
Aos dezesseis anos, lançou sua primeira campanha em favor dos expatriados pela Guerra Civil Espanhola, chegando a adotar bebês e cuidando de sua sustentação.
Durante o conflito de 1940, levantou fundos para trazer judeus para a Grã-Bretanha, que se encontravam a caminho das câmaras de gás. Finda a guerra, estudou Direito e reuniu forças que lhe permitiram deflagrar uma campanha em defesa dos perseguidos nos mais diversos pontos do mundo. Foi o que fez no Chipre, na Hungria e na África do Sul, nunca se considerando realizado.
Conservou seu entusiasmo pela Anistia Internacional, chegando a ser considerado um lunático pelos seus opositores, criando como símbolo do seu movimento uma vela em volta em arame farpado. Essa veia revolucionária o acompanhou durante a sua frutuosa existência, preocupado em agregar o maior número de pessoas, igualmente sonhadoras, que se aliassem na luta pelo respeito aos direitos humanos.
Segundo ele, a vela que cultivou foi inspirada no provérbio chinês de que é melhor a luz produzida por uma vela, do que viver na escuridão.
A vida de Peter Benenson não pode cair no esquecimento, estando a merecer da Ordem dos Advogados do Brasil um destaque que talvez não tenha obtido na Europa.
Quando de seu passamento não houve funeral pomposo, mas sim uma cerimônia simples para os membros de sua família. Embora a Anistia Internacional hoje constitua uma das maiores organizações do gênero no mundo com 1,8 milhão de membros, havendo completado 44 anos, a repercussão de sua morte não está à altura de seus méritos.
As campanhas empreendidas pela Anistia Internacional incluíram um chamado pelo fim da execução de crianças no Irã, a advertência contra violação de direitos humanos no Nepal e, recentemente, protesto contra a morte da missionária Dorothy Stang, ocorrida no estado do Pará.
Não há como esquecer esse advogado notável, cidadão prestante, falecido aos 83 anos e que tanto lutou em favor da paz. Aplica-se-lhe aquele conceito de Bertold Brecht: “Existem homens que lutam por um dia e são bons. Há outros que lutam por um ano e são melhores. Existem aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons. Existem aqueles que lutam toda a vida - esses são os imprescindíveis”.
Não foi outro o combatente que perdemos na luta inacabada contra a violência e a opressão".
