Artigo: O crack e a catástrofe social
Porto Alegre (RS), 12/08/2009 - O artigo "O crack e a catástrofe social" é de autoria do presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul, Claudio Lamachia, e foi publicado na edição de hoje (12) do jornal Zero Hora (RS):
"É com justificada e profunda apreensão que vemos o vertiginoso aumento do consumo de drogas em todos os meios sociais, apesar dos muitos esforços para combatê-lo. Enquanto a disseminação dos entorpecentes cresce em escala industrial, o seu rebate, nas mais variadas frentes, parece fraquejar diante da espiral que agrega novos usuários - leia-se vítimas - a cada dia. Triste e inegavelmente bem organizado em suas ramificações, o narcotráfico, um dos mais rentáveis negócios do planeta, não dá sinais de recuo e coloca em xeque as ações empreendidas para enfrentá-lo.
Nos dias atuais, no entanto, uma droga específica - o crack - vem dominando o cenário gaúcho e brasileiro e desafiando as políticas públicas de prevenção, assistência, controle e combate. De poder avassalador, "a pedra" pode viciar o usuário já na sua primeira experiência e o que vem depois é a tragédia certa. Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. Relatos de suas vítimas, de especialistas e de familiares de usuários sobre os efeitos da droga podem ser resumidos em três palavras tão básicas quanto contundentes: sofrimento, degradação e morte.
O crack elevou ao patamar de catástrofe social o potencial de violência e criminalidade que acompanha o mundo das drogas, lícitas ou não. Nesta mesma órbita estão dramas pessoais e familiares que causam extrema dor. Seres humanos, tanto em tenra idade quanto adultos e mesmo famílias inteiras - especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social -, vêm sendo literalmente destruídas pelo simples contato com a pedra da desgraça.
É preciso que as políticas públicas neste campo recebam investimentos e considerem os vários aspectos que envolvem a narcodependência, como a realidade socioeconômica do país, a conscientização da população e, em especial, das famílias, o drama pessoal vivido pelos usuários e aqueles que os cercam, as dificuldades de bem vigiar todas as fronteiras por onde passam as drogas e/ou seus componentes, as carências das entidades assistenciais e de saúde, a necessidade de recursos para os aparatos policiais, a urgência das melhorias nos sistemas prisionais e a agilização da Justiça, dentre outros fatores igualmente importantes.
De largo espectro, a luta contra as drogas - e o crack - é, por isso, de toda a sociedade e deve objetivar o fim ou a minimização dos dramas pessoais e familiares, o banditismo, a violência e a criminalidade umbilicalmente associados ao comércio e ao uso ilegal de narcóticos. Todos precisam estar conscientes e preparados para enfrentar o problema de frente, com vigor e sem meias medidas, pois não é mais possível ignorar o rastro de destruição cada vez maior que vem sendo forjado pelas drogas em todo o país."