Segundo Watters, o delegado federal José Armando Costa, responsável pelo inquérito da bomba da OAB, sugeriu que ele fosse a Brasília para confessar o crime ao então ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.

"O Armando (José Armando Costa), delegado responsável pelo inquérito, fez uma proposta para eu ir a Brasília, conversar com o Abi-Ackel e admitir que eu tinha sido o responsável por aquele atentado. Depois eles me dariam fuga e, concomitantemente, uma cooperação, uma polpuda ajuda financeira", relatou. Segundo o agrônomo e suposto ex-agente da CIA, o que nega, a decisão de apontá-lo como responsável teria partido do chefe da Casa Civil do governo João Figueiredo, Golbery do Couto e Silva.

Watters disse que a proposta foi ouvida por um agente da Polícia Federal chamado Dirceu, que estava atrás da porta do apartamento onde ele estava detido, no presídio de Água Santa, Zona Norte do Rio.

A acusação contra Watters foi retirada logo após a explosão do Riocentro, que teria sido o maior indício, na sua opinião, de que os atentados partiam de um grupo organizado e não contavam com a sua participação.

"Quando a bomba do Riocentro explodiu, eu estava preso. E foi uma verdadeira festança. O então capitão Astério Pereira dos Santos, hoje muito meu amigo, e outros oficiais do presídio onde eu estava detido ficaram satisfeitíssimos. Inclusive me disseram: Puxa vida, Ronald, isso é mais uma prova de que você não tinha absolutamente nada a ver com a OAB", contou.

Segundo Watters, além de suas conhecidas relações com o grupo de extrema-direita que praticava os atentados - nos quais ele garante jamais ter se envolvido -, pesou na decisão de apresentá-lo como culpado sua ficha de antecedentes.

Em 1962, Watters foi preso pela primeira vez, acusado de um atentado a bomba na Exposição Soviética que se realizava em São Cristóvão. A bomba, que não explodiu, teria sido montada com explosivos armazenados numa sala do Edifício Avenida Central alugada por Watters.

"Emprestei a chave ao coronel Carlos Ardovino Barbosa, chefe do policiamento ostensivo da Guanabara", afirmou Watters. "Nunca poderia imaginar que o Ardovino fosse entregar a chave para este bando de desvairados do MAC (Movimento Anti-Comunista). Fizeram ali nada mais nada menos do que o depósito de uns 200 ou 300 quilos de bananas de dinamite".

O coronel Alberto Fortunato contou no livro 'A direita explosiva no Brasil' ter sido o responsável pela preparação da bomba, com dez bananas de dinamite. Watters ficou preso alguns meses no Regimento Caetano de Faria, da Polícia Militar, acusado de pertencer a uma célula terrorista de direita.

A acusação foi usada como pretexto para sua prisão, em outubro de 1980, dois meses depois do atentado à OAB. Watters foi apontado pela Polícia Federal como suspeito não só de ter enviado a carta-bomba que matou a secretária Lyda Monteiro e que explodiu na Câmara Municipal do Rio, mutilando José Ribamar Sampaio Freitas. A Polícia Federal apontou Watters como remetente também da carta-bomba que não explodiu na Sunab, órgão já extinto do governo federal que cuidava do abastecimento.

Se não serviram para manter Watters preso, as acusações não comprovadas também não levaram à pretendida indenização pleiteada por ele na Justiça - e que pretende voltar a pedir em breve, caso se comprove quem foram os autores do atentado. Apesar disso, Watters diz que jamais se livrou da má fama. "Uma vez, num avião da Ponte Aérea, uma senhora me reconheceu, virou para o marido e gritou: Neste vôo eu não vou! O terrorista está aqui!", contou. 

Em “Proposta para assumir atentado”, Renato Fagundes. Jornal do Brasil, 23/05/99.