Editorial: O fundo do poço

domingo, 09 de agosto de 2009 às 09:46


Aracaju (SE), 09/08/2009 - O editorial "O fundo do poço" foi publicado na edição de hoje (09) do Jornal da Cidade (SE):


"Os últimos sete dias talvez tenham sido os mais difíceis - e, por que não dizer, horrorosos - já vividos pelo Senado da República como instituição respeitada, casa dos mais antigos políticos que deveriam dar o exemplo de ética e educação. Não foi o que aconteceu: aos bate-bocas, dois violentos no correr da semana, seguiram-se o arquivamento de todas as ações propostas pela oposição contra o presidente José Sarney. Uma crise de tal modo profunda que o presidente nacional da OAB, Cezar Britto, chega a propor "a renúncia coletiva de todos os integrantes do Senado". Claro que isto não vai acontecer, até porque, a cada renúncia seguir-se-ia a convocação desta figura espúria, mas ainda existente na Constituição Federal, o suplente.


O bate-boca da terça-feira, entre o senador Pedro Simon e seus pares, Renan Calheiros e Fernando Collor, foi a prova viva que não há inocentes entre os oitenta e pouco integrantes do Senado. Mas, causa pejo e angústia saber que dois sujeitos espúrios, como Calheiros e Collor, ainda dão as cartas no Senado. E, pior do que isso, com o apoio explícito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem são aliados. O PT, imolado na sua tentativa de raciocinar numa saída para a crise, esquivou-se para não aparecer na briga, embora interiormente sabe-se que o PT detesta os dois aliados. Quem teve oportunidade de acompanhar o debate deve ter ficado impressionado com o rosto inflamado do ex-presidente Collor. Parecia que o homem enlouquecera - e daí para faltar ao respeito com o senador Pedro Simon foi um mero passo. O motivo de toda esta querela, o senador José Sarney, do alto de sua poltrona de presidente, não movia um músculo do rosto. Parecia dizer que "isto não é comigo, nem com o meu umbigo".


Poucas horas depois, o embate foi entre Renan Calheiros e Tasso Jereissati. Ora, ouvir Calheiros fazer acusações contra a honestidade dos outros, certamente dói na alma, mas foi o que aconteceu. Hoje, Calheiros talvez mande mais no Senado do que o próprio presidente Sarney, porque é ele quem organiza a tropa de choque e parte para o assalto, como se estivesse num ringue de boxe. Foi outro espetáculo deprimente, com Calheiros perdendo a compostura ao resvalar para o uso de palavras de baixo calão.


Enquanto isso, o senador Paulo Duque - um senador sem votos porque é apenas o terceiro suplente que assumiu a vaga - "enterrava" a Comissão de Ética, mandando arquivar as 11 representações contra o presidente Sarney, mas deixando para depois uma decisão sobre a representação contra o líder da oposição, senado Artur Virgilio. Para completar este circo de horrores, o senador Paulo Duque arquivou uma ação do PSOL movida contra ele próprio. A argüição de suspeição questionava a isenção de Duque na condução das ações contra Sarney.


Foi também mais uma semana em que o Senado não se dispôs a votar uma só matéria das muitas que tramitam na Casa. A crise não deu lugar ao trabalho legislativo. Cedeu às baixarias ouvidas em plenário e transmitida viva-voz pelas televisões, até pela própria TV Senado.


Chegou-se, então, ao fundo do poço? Ou, para o Senado, o poço não tem fim?"